sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Retorno - uma Odisséia às avessas...


“O herói, depois de anos ausente, retorna ao lar. Quase esquecido, na vida nada tem mais valor que as vitórias, na terra e no mar. Monstros, enfrentou os piores, de arte plena revestiu a vida, de sonho tornou-se matéria de poesia. A imagem reluzente, agora distante da luta, retorna a casa. Uma criança pulsa dentro da pureza do coração, o abandono necessário, mas de volta, velho alquebrado. Na alma o sorriso. Um menino.

O homem se ausentaria apenas por uns dias. Na mala, somente as coisas de uso pessoal, de sua higiene, e pouca roupa, a programação sem novidades, sem tempo. Restrito aos auditórios, talvez um terno simples e três camisas, cuecas, e mais nada além do cotidiano. Longe de casa, persistiriam os mesmos hábitos, a sua rotina jamais se alteraria.

Como se dentro dele o gelo fosse eterno, uma frieza estúpida que torna a vida um arrastamento ininterrupto até o final de um precipício. Era assim que se via, em uma nau em meio ao mar infinito, até que de repente se abriria a grande garganta, que o engoliria para sempre. Como eram engenhosos os antigos quando imaginavam o fim do oceano, pensava, e mais aqueles monstros. Era um mistério da vida conviver o tempo inteiro com o medo, o surgimento repentino de um ser imenso, brotando do fundo das águas. Águas que guardavam outros perigos, tubarões e baleias assassinas.

A felicidade é não perturbar a vida, deixá-la correr sem rachaduras, sem a mão que dirige o destino, gosto de me arrumar para estar pronto. E só. Minhas malas levam a minha vida, tão simples, a casca do ovo, sempre igual, um ovo é igual a outro ovo, muda o tamanho sim, mas no fundo dará na mesma galinha. Adoro isso.

“Agora volta para casa. Seu sorriso canta apenas o que viveu, o que era preciso, não recalcitrou as ofertas de bandeja do destino. Ameaçou os deuses, o sangue em sua túnica rasgada, maltrapilha, sinaliza o mundo selvagem que foi o percurso. Mas com ele as palavras. Livros abrem portas, imagens concretas dão humanidade a sonhos. A vida, jamais se cansou de buscar em cada gesto o cercado de inocência, não recusou os movimentos incautos e inseguros, a dose de coragem sempre alimentada pela criança que imitava de dentro.”

O café no hotel. Nada diferente. O pão francês, o leite quente. Foi o que pediu. E mais uma fatia de queijo. Para que serve o pensamento? Valeu ter pensado tanto essa gente que escreve livros? Odeio filosofia, odeio qualquer coisa longe de um dicionário, ou do caderno de notícias, que são iguais todos os dias, morre um, cai um prédio, outro atentado, tudo o mesmo. Este é o grande acontecimento, imitar o dia, hoje um sol tranqüilo, amanhã quem sabe uma chuva, e no final o abismo, sem mais. Tomar café no hotel como se fosse na própria casa, ausente apenas a mulher, mas esse silêncio não é o mesmo dela?

Esse silêncio que só permite uma música em volume baixo, quase impessoal de tão discreto, acanhado. Fizemos assim, uma vida perfeita, a mulher acorda e sabe que o homem a protege, toma o café e vai para a luta diária, ela tecerá os fios da espera e de noite aquecerá o frio com o corpo, dormirá feliz.

Ainda sinto o gosto do beijo quente, mas chega disso que não é hora, você sabe que tem hora para tudo. O café no hotel sem o beijo. Esse beijo diário, já sem a força dos primeiros anos, mas acho que sempre foi assim, sem sentir falta alguma, ou vontade nenhuma.

Ele quer que o hoje seja como ontem, e isso me enche de raiva, o peito oprimido, minha respiração em respiração em fogo. Do outro lado, a quilômetros de distância, ainda estou na cama, não como de costume, eu quero fazer diferente, ele é que tem cara de rotina. Vibro com a idéia de não ter que levantar e preparar um café com leite, o humilde pão francês. Depois ouvir a pergunta: ainda tem queijo? Vida irritante. Hoje será diferente, naquele livro está a vida dos grandes artistas e dos filósofos. E imaginá-lo lá, no meio de conferências, vestido no mesmo terno velho usado no casamento, olhando indiferente para o tempo, como uma praga, como se navegasse um mar tranqüilo, até que seja tragado pela eternidade... como eu gostaria que fosse para sempre. Por que esse monstro do mar não aparece logo e o carrega para as profundezas, eu aqui morro afogada a cada dia, minha voz perdida nas águas, desse mar sem ondas, desse mar de torturante calmaria, onde estão os peixes? Onde está o perigo? Talvez na janela, ou no mercado... no mercado vejo a minha segurança, ou a dele, e acabo dando gargalhadas que ninguém entende, entender essa gargalhada tão vulgar, sim, vulgar como me sinto, se ele imaginasse, estou aqui ainda na cama, pensando em como me desfazer da presença dele aqui impregnada, nas paredes, nas xícaras, hoje não tem café, nem pão. Como gostaria de vê-lo cair no abismo, nas gargantas profundas do oceano; como é estranho desejar a morte.

Logo ela, uma mulher educada para servir todos os dias de bandeja o marido. O monstro dentro de si crescendo, a mulher livre naquela manhã sufocando, a mulher feliz por estar livre da presença ininterrupta de seu algoz, sozinha. Imagina então que, se pudesse estar lá, no hotel tentaria um acontecimento, deixar que um sino tocasse, como nas histórias em que um casal, vivendo anos de sua rotina, desgastado, após o conselho de um terapeuta, viaja para quem sabe. O casal resolve ir para Veneza, gastam o resto de dinheiro das suas vidas, vendem um automóvel e embarcam em gôndolas, na fantasia dos beijos que vão acontecendo um a um... mas a morte fulminante do homem, após um jantar à luz de velas, na cama do amor, transforma esse santo momento em um coração estraçalhado, um coração que nunca suportou ser feliz

Sei que o homem está lá, tomando o seu café com leite, comendo o seu pão francês e depois a terrível fatia de queijo. Por que sempre esquecê-la na hora de comer o ridículo pão, e me fazer ir até a geladeira, pegar um queijo que nunca acaba? Sim, porque nunca se esquece de comprar o queijo, assim como o pão, o leite o café. Ele nunca se esquece de nada. E depois o beijo. Odeia beijá-lo com aquela boca de queijo passado. Melhor seria morrer com o coração explodido que vê-lo todos os dias repetindo um gesto, com essa habilidade cirúrgica, o corte em minha vida calculada para ser perfeita.

O monstro dentro de si crescendo. Ela vê os tentáculos surgirem de seus cabelos alvoroçados, hoje não precisa de escova. Ela sai, encherá a casa de pretendentes, não será a mulher tecendo o tapete, não se guardará. Ele, o homem, estará do outro lado, em outro hemisfério, realizando o seu cotidiano, ele tem todo o tempo do mundo, ele não tem pressa, ele sabe que amanhã é apenas uma conseqüência, nada mais, ele sabe que retornará a casa e deixará a mala no chão, um café socorrerá o frio de sua boca e, aquecida, poderá oferecer o beijo das manhãs, o beijo da proteção, e ela, linda, se sentirá a mais feliz das esposas.

Ela não tem tempo, ela precisa tomar a primeira gôndola antes que ele retorne, ela quer ser engolida por um ser das profundezas, ela percebe que a grande garganta se oferece dentro da alma, os perigos, a atmosfera turbulenta de um mar agora completamente enfurecido, trêmulo, e precisa se agarrar antes que o tempo escorra inteiro e volte aquela louca calmaria.

Ao chegar ao palácio, o herói encontra os seus antigos pertences tomados por outra mão, o seu cão, o seu filho, e a sua mulher eram parte de outro homem. Ela, uma rainha, após vinte anos de ausência, após tecer infinitamente um tapete em cuja estampa só figuravam tristeza e solidão, deu um grito que ecoou em toda região, e mil homens adentraram o salão nobre, vergaram seus arcos, dirigiram suas flechas em direção ao desejo. Sempre há um vencedor.

O herói bem que tentou repetir seus feitos ao ver a cena do palácio tomado, evocou o passado e os deuses que sempre o protegeram. Mas não. Pois não era mais o homem, era de novo o menino. Frágil, partiu. A vida aberta novamente, a ferida uma cicatriz

Renato França

domingo, 16 de janeiro de 2011

ALAGAMENTOS


Um longo dia, uma longa noite. Olhar para o quadro na parede e nada ver além do rosto cansado dos amassos do tempo. Um rosto hoje desfigurado, ou cuja figura apenas se marca de experiências sofridas. E olha para o peito, vê o sangue que escorre, o sangue que elimina a vida, como rios correndo para o seu trágico final. Um rio que nasce feliz no alto de sua montanha, e corre como um menino cheio de alegria, um menino que acredita na bondade humana, um menino cheio de esperanças, o rio, o menino, passeando na mente de um homem, que olha no espelho o fio perdido de sua crença, e o menino perdido no caminho, na descida aos umbrais, no oceano de sua vida.

O quarto dos espelhos, por que sempre eles... eles sempre dizem essa dura verdade, o tempo marca, o tempo corrompe, o tempo dilacera com suas lembranças, e a mulher aparece com sua imagem invertida, quem é essa mulher que lhe tira todas as forças, quem é essa mulher que lhe toma a alma... no tempo do amor as coisas pareciam leves, o toque adornado de fantasias, um íntimo festival tornava a vida um rio suave, descendo com sua energia por entre as pedras de uma região serrana, as pedras que poderiam impedir o seu trajeto, as pedras que serviram até para construir palácios no meio do caminho, um íntimo festival ver a espuma formando longos lençóis onde corpos se amam, naquelas cachoeiras quantas histórias de amor grafadas, as pedras testemunhando a nudez, e o rio descendo suave, tocando suave a pele sob raios de sol recortados pela roupagem verde da mata. O rio desce acreditando ser esse o momento crucial da vida, mas infelizmente há também as tormentas de inverno, e as chuvas tornam esse rio um grande mal, arrastando os amantes para os precipícios, dilacerando as esperanças de jovens, de famílias, o rio nervoso, o rio cruel, o rio matador, o rio sem sonhos. O rio devastador.

O rio homem desliza para o horizonte... ele quer o mar.... ele quer se salvar... ele quer encontrar a sua gente... mas essa gente é salgada, essa gente, que na aparência parece igual, busca outros ideais, guarda no seio outras vidas, outros vegetais, outros sonhos, o mar barulhento, o mar dos poemas, o mar da vida, o mar da morte. O rio quer abraçar pessoa tão potente, mas o garoto é inocente, acredita ser esse o amor de sua vida, corre em sua direção como se esse mar fosse a grande resposta para os seus enigmas, que todo o mistério de sua caminhada encontre naquele corpo a resposta definitiva, o seu leito... esse amor que acredita na eternidade, os dois velhinhos balançando na varanda, olhando-se nos olhos cansados, azuis de mar, azuis de amor.

Existe uma madrugada. O silêncio dela atordoa. Olha o mar na quietude, o ruído das ondas. Do outro lado corre o rio, no rio navegam os projetos um a um, em seu desfile de toda uma vida. Um menino correndo, perdido entre imagens criadas como brinquedos. Um quadro na parede do seu quarto, esse olhar vazio de quem se perdeu dentro de seus labirintos, sem fio, sem esperança. O homem pensa nas lágrimas que já verteu, vê que suas alegrias se foram... na mesa posta apenas os restos, farelos de pão, canecas sujas...

Existe uma manhã, que chega aos poucos... no telefone a voz do mar convidando a enfrentar abismos... na parede o quadro é lido novamente, e há nele detalhes, quase imperceptíveis, mas o olho de boa vontade poderá enxergar novos caminhos. Por que a amaldiçoar o cotidiano, por que deixá-lo minguar na sua sorte, não haverá outros mistérios a desvendar nesse grande mar? Será possível Ter vivido tudo?

No quadro os barcos sobrevivem a uma tempestade, ou pelo menos a enfrentam, as ondas enormes não conseguem esconder a imponência do mastro, e a bandeira está, apesar dos ventos enfurecidos, em sua total abertura, desafiando a força da natureza.

Onde está essa bandeira? Onde o homem a esqueceu? No rio de sua imaginação aparece ele, o menino, ainda sorridente, desfilando junto aos mortos, juntos aos restos. Ele recolhe as esperanças despedaçadas, toca as feridas de um a um dos caídos, e com suas lágrimas lava a dor derramada no piso do convés.

“Ah! Esse menino vive no meu peito... esse menino tem os olhos de meu filho, tem os meus olhos também... será ele o tal anjo da guarda?”

Esse o pensamento desse homem, agora mais decidido a deixar o quarto e enfrentar a tempestade que lá fora grita. O quadro continuará ali, com seus navios em combate, enfrentado o perigo do mar... o mar, esse grande mar que reflete o céu.

·

A água da chuva desliza pelas ladeiras formando enormes cachoeiras. As ruas completamente alagadas, não havia como transpor as correntezas para alcançar a outra margem, a calçada paralela, ou seja, tomar uma direção oposta, pois era isso o que buscava ao descer aquela rua, enfrentando a chuva torrencial com seus pingos grossos como lâminas afiadas, que ao tocarem a cabeça deixava o reflexo do impacto como uma dormência. Pingos duros como pancadas no cérebro. Como cobertura buscara um jornal velho, único objeto que apareceu à mão depois da longa espera na fila do banco, espera inútil porque não havia pagamento a sacar, não havia resto de saldo. Deveria então seguir a pé até o outro lado da cidade, da sua cidade querida, sua confidente e amiga, testemunha de suas desventuras e caminhadas no silêncio.

A chuva denunciava a tristeza de crianças e de outros seres mutilados na alma. Almas desesperançadas, cujos sonhos eram vaga lembrança de um tempo que jamais foi tempo, que sequer ousou criar imagens, pois parece pecado ferir a realidade dura, a realidade concreta, tão cruel e perversa, quase sempre encoberta pelo sorriso orgulhoso das mãos que enfrentam noites distribuindo sopa quente aos miseráveis, mãos satisfeitas pelo cumprimento do dever, devotas da fome, do frio. Olhava essas pessoas como se pensando deixar-se levar como elas, ou com elas, ao Deus dará. A chuva ameaçava os anjos da noite, não haveria sopa quente por algum tempo, e o melhor era estacionar numa marquise que fornecesse um metro quadrado que fosse de terreno seco. E a chuva persistia.

Ao longo da ladeira o rato se debatia para não morrer afogado, a correnteza o arrastava, percebia-se a força que fazia para se agarrar nas frestas do meio fio, mas estas pareciam cheias de limo... o rato tentava em vão fincar as unhas em movimentos rápidos. Mas tamanho era o seu desespero. Sabia, talvez, que jamais voltaria ao seu ninho seco, e que suas crias não beberiam mais do seu leite... estranho mesmo era olhar para esse rato e tentar admirá-lo em sua inexistente humanidade, como se de fato estivesse ele cheio de sentimentos nobres, como o de alimentar as suas crias, ou melhor, a angústia por se sentir totalmente impossibilitado de oferecer o seu seio, agora irreversivelmente na sensação de fim que isso causava, não sei se ao rato ou a ele, interlocutor da morte que chegava com a tempestade. O rato vivia ali a mesma experiência dos moradores do morro de sua infância, talvez naquele momento soterrados nos deslizamentos poderosos de uma chuva insensível à dor.

O rato vivia ali a mesma experiência dos muitos moradores do morro que servia de vista aos olhos do homem quando este se debruçava à janela para respirar no ar causticante da cidade. Apartamento ou cortiço, que importa... ninho de sua vida, a sujeira companheira, a mulher desaparecida... o rato desesperado agarra-se à calçada e consegue em seu quase último esforço alcançar um vão, seu caminho à vida... teve sorte o coitado, pois na madrugada de ontem soube da morte de seis crianças vitimadas pelo deslizamento de um barranco... todos soterrados... o rato agora está a salvo e esse homem quer voltar para casa após perceber que nada poderia fazer, o salário não foi pago, sua conta bancária gozando da sua cara, sarcasticamente.

Só lhe restava voltar, num ritmo homérico pelas ruas da cidade até atingir as escadas do velho edifício de três andares, tombado pelo Patrimônio Nacional... prédio de tantas histórias, como um álbum de retratos. Talvez por isso não se incomode com tantos detritos acumulados no corpo, há meses, desde que, vendo-se sozinho, permitiu o lixo em si como uma decoração. Alcançar o prédio velho e com ele ficar à mercê do tempo.

Mas seus olhos se enchem de lágrimas... o quadro está lá... duas embarcações enfrentam uma terrível tempestade, o quadro desprendeu-se da parede e serve de balsa a um rato, agarrado a uma casca de banana, sua refeição desesperada. O homem percebe o alagamento, as paredes não oferecerão resistência, as águas chegam de todos os lados... do banheiro, do teto através dos lustres... a ação Terrível do tempo... o homem chora porque queria Ter forças para remar, forças para retirar com seus braços a água que invade a sua alma... e como o rato, nesse momento crítico, ainda Ter o prazer de devorar o que lhe resta... há trovoadas, a chuva não vai parar... o rato nadou até a sua toca, acho que saciado... o homem corre e se abraça ao quadro... o quadro de sua história tem de ser salvo do alagamento... quando entrou deixou a porta aberta, as escadas são enormes cataratas... não tem dinheiro, não tem nada... a roupa maltrapilha deverá ficar ali mesmo. Ele se agarra ao quadro, mas sente que melhor será mesmo salvá-lo. Suspende-o acima da cabeça. O quadro lhe protegerá dos pingos que parecem facas, sim, o quadro não tem salvação, mas poderá servir de embarcação, de teto, de passagem para o outro lado de um mundo hostil, mas um mundo que com certeza lhe oferecerá novas escadas, novas paredes, deve haver esse lugar, a tripulação luta contra os ventos, não quer morrer no meio de um oceano escuro, protegem os mastros e as velas, o outro barco aponta seus canhões numa batalha terrível, de um lado a natureza com sua força destrutiva, de outro o desejo do homem de submeter, de abordar e destruir bandeiras... a bandeira tremula sob um duplo ataque, o quadro cristalizou essa cena que não tem fim. O quadro com certeza não resistira ao combate final contra os pingos pontiagudos, mas o homem começa a sentir feliz porque vai sobrevir a este alagamento.

Renato França

sábado, 15 de janeiro de 2011

Homens ao mar



Na travessia do Atlântico eles sentiam o medo do desconhecido. Mais que tempestades, temiam o abismo do mundo, o momento crucial da vida, quando da enorme queda deveriam se despedir para sempre. Os marinheiros. Eles e suas crenças, o monstro marinho que cruzaria diante da embarcação com a enorme cauda destruindo as esperanças de voltar, rever mulher e filhos. Tudo se perderia em um golpe só, e daí a raiva que sentiam do capitão, homem insensível à dor da tripulação, obstinado em sua sede de chegar ao fim início do sonho, um lugar futuro com seu nome, um monte virgem.

Movido pela paixão, o capitão nunca daria ouvido a sentimentos brotados dentro da alma. Sentia a mesma saudade da família, mas nada que o fizesse retornar o movimento e retrocedesse o objetivo desbravador. Além disso, sabia dos prejuízos, a desgraça em que todos cairiam junto a ele, postos a ferros em fria cama de masmorra, o espírito endurecido. Por isso deixa o vento tocar a espessa barba, esse capitão que olha os seus homens e sente pena, mas duro não se verga. Domina as marés, sabe dos monstros no coração de cada um, sabe do abismo logo à frente, mas é preciso superá-lo, fazê-lo sucumbir diante do heroísmo.

Nos momentos mais difíceis da viagem lembrava que Deus existia na imensidão do mar, como um nada. Sabia que o nada daquele mar era vivo, um nada à frente, um nada ao redor, um nada é tudo que possa crer, o mar repleto de seres vivos, é um mundo invisível. Olha no céu, nem nuvens no nada acima de cor azul. No meio-dia ameaça a loucura no calor, implacável, a obra de Deus e sua mão mandando ir, sem medo, ou dominado. Tomar pela cauda o monstro e retira-lo das entranhas do mar, da alma. O episódio épico é a condição do capitão, senhor dos mares e dos homens, seus destinos, ou de si mesmo.

Ah se os homens soubessem o quanto lhe corrói o espírito ser duro, se a mulher soubesse o quanto de mágoa seca no coração por saber perdê-la das retinas, o esforço que faz para manter viva a imagem das crianças.

O capitão mal as conhece, no turbilhão da vida que escolher, comandar homens e a renúncia de comandar a vida dos filhos, o perdão quem sabe se terá. O destino, apenas o da tripulação ignorante, de aparência miserável, sem qualquer ideal. Homens assentados no navio, ali pensando apenas em um dia de pesca, mais um dia como os demais de suas vidas simplórias, presas à rotina de acordar, trabalhar e dormir. No fundo, aceitaram um desafio, sabiam ser viagem o grande acontecimento ser saber. São coisas assim: de um momento você percebe que a vida mudará a direção, para sempre. Mesmo os mais simples, sem qualquer experiência intelectual ou metafísica, pressentem o repentino. O momento sem volta.

E lá vão semanas e meses. Saudade e morte. A melancolia é uma doença disfarçada em escorbuto. Provações, pouca água, ausência de comida, sem descanso, sem o vento.

Pouco sabemos do que ia ao coração daqueles homens quando se aperceberam do paraíso. E aquelas mulheres nuas, como devem ter tocado fundo os seus corações. Talvez um prêmio, esse banquete. A alegria vem dessa forma. O capitão, vendo a tripulação mergulhada no amor, olha-se e pergunta-se: por que não eu? E uma folha cai sobre a cabeça.

É uma folha tão verde, de uma planta cujos frutos lhes são desconhecidos. Ele pára. Entende o sinal, a trilha do herói nunca termina e não será ali, no fugaz instante da beleza o dissipar da missão. O amor que sente é como o céu estrelado, surgindo como o nada do mar que afoga tristezas, o seu amor é o rumo, o lugar o caminho... seu monstro a sempre domar.

Renato França

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Serpente



Temas sobre temas, num claro porvir de sombras rubras. Assim o coração pensa, tramas da aranha no ângulo do quarto. No divã, uma serpente masca os cabelos. Ruiva e mística, vermelho o coração que se abre em um debruçar macio. Além do quarto a janela, as buzinas, o esvoaçar de vozes em desvio, a noite na cidade que grita infinitamente. Nesse momento, ela é toda ouvidos, o que lhe resta dos sentidos quase mortos — quase sem corpo — a responder os estímulos do roçar no tímpano — ter os sons sobre, nada ter além de temas, do antes, do antes da aranha devorar aquela mosca entregue à sorte, e que num vôo distraído nem percebeu as tenazes mortais da espera.

Poderia sorrir àquela espera, poderia ser sua aquela presa, olhar-se no espelho e revirar a face em direção da mesma aranha. Agora com olhos de mosca em desespero. Assim à noite, em sua espera de fim, as vozes roçando o tímpano que teima decifrar de quem pertencem. Que eco, que som faz agitar os guizos e a língua.

A porta do quarto, o girar da maçaneta. Desperta a serpente.

Agitando o chocalho sai à caça. Mas agora aranha, mil tentáculos. Este corpo cheio de ambigüidades ameaça a multidão de corações sonhadores. E ela desliza do espelho na ânsia de raspar o brilho ancestral das mulheres de invenção (como nas velhas narrativas de um quarto sujo de uma menina no abismo, trancada entre móveis decrépitos e ratos alcoviteiros, aquelas mulheres que invadiam a sua miséria infernal, única ponte com o universo lá de fora, um mundo longe do seu círculo, outra existência. Perséfone nas garras de um impenetrável Plutão, o quarto infestado de moscas — lá, naquele passado já distante da mulher, em sua infância, tempo obscuro, de meias lembranças, recalcada a sua sina, surge a personalidade de aranha) e rompe com passos rápidos a morbidez da memória. Viva, sua língua eloqüente canta agora o momento em que um dia desejou saciar a sua sede e romper com as portas de sua alcova. Romper com as correntes que a prendiam à alma infame de um homem cruel. Ela mesma assumindo a sua crueldade, tonificada. Precisa saciar sua sede, sua ânsia. Desde de que deixou a serpente lhe tomar totalmente a aparência, adquiriu a força dos sobreviventes.

“ Veja esses olhos profundos, o corpo lânguido e esguio, talhado. No espelho roço esse desejo de envenenar, de dizer quem sou”.

Coisifica-se, e ganha as ruas.

Numa avenida há tantos homens, embriagados, vendedores, garotos sujos, qualquer um serve de alimento para sua boca voraz, mas sempre a preferência pelos mais sublimes, os apaixonados poetas cheios de fogo no olhar. Se antes havia uma sensação de torpeza, agora a mulher afasta de vez qualquer resquício de angústia, é a gargalhado em seu chocalho, é o encanto das ruas, a face que poderia ser sua, porque ao menos herdara um pouco de humanidade, traços da santa que como um véu dissimula a sua triste figura, seu verdadeiro rosto, de moça perdida, que só o espelho conhece.

São duas da manhã. Ela anda. Os carros cruzam, faróis tentadores; os braços passeiam livres pelas alamedas, pelas vias abertas. O tráfego é livre, livre é a alma que encarna a cidade com seus descaminhos, que despertam as paixões fugazes que sentimos. Quem anda é a mulher, ela, a mulher tecendo com seu fio a teia atraente. O caminho, o rastro. Seu perfume sobrevoa o ar. Sua forma de aranha.

Seguem seus passos (que na realidade são aromas) alguns homens estranhos. Será o momento? Ela pensa. A interdição caminha ao lado, ameaçando os nervos. O “é agora” próximo à loucura. Sim, o desejo daqueles homens aperta o passo, alucinados agora por sentir a fragrância que foge ao corpo. Ela ensaia um gesto de medo e repulsa, finge correr, surpreende com olhos espantados. A aranha apenas desloca-se de sua fixidez, tece centímetros de sua espera;

( em um vôo pálido um mosquito; pálido porque o sangue do rapaz anêmico do hospital é podre, contaminado, e o mosquito, embora saiba de seu fim trágico e próximo, sente-se senhor de si, seu orgulho ostentado na perturbação que causa, mas sabe que o seu sangue imprestável é mais uma mentira das tantas contadas pelas enfermeiras, nos seus casos de amor alucinante com os médicos, nos adultérios cometidos entre camas e doentes, e assim o mosquito em seu derradeiro vôo como que homenageia aquele moribundo magricela estirado infeliz na cama, fingindo a sua soberania em meio ao ar, com o corpo cheio de um sangue corrompido. Sabe ser o sorriso o aceno de um fim, um fio malicioso, o sorriso daquela mulher, que já não traz na face o seu disfarce, mas é um sorriso, diferente, é verdade, do esculpido na menininha perdida no quarto fechado, quase enlouquecida por aquele pai, que toda noite vinha depositar seu corpo de mosca sobre o dela. Até o dia em que a teia rompe seus limites e revela seu sorriso fatal, ela já transformada, ela já pronta, deixando para trás o corpo morto, da criança, do pai, da porta, depois de um fio rubro escorrer até o fim , a imagem de um punhal tentacular, as presas da serpente, o fio-marca daquela aranha no ângulo do quarto, esperando, hoje, o anêmico das ruas entregar-se às suas presas de víbora, pelo simples prazer de um vôo distraído). E pensava que fosse assim.

Tombam os homens. Inesperadamende, quando se imaginava o êxtase, ela, transmutada, expõe suas tenazes. São corpos perfurados e um vulto que desliza na calçada até sumir na escuridão do quarto, satisfeita a sua sede. O sono profundo, o amargo que não cessa na boca. Tudo volta, a cena de sempre.

Temas sobre temas, num claro porvir de sombras rubras. A náusea do infecto quarto da infância persegue a serpente. Até quando ? Moscas passeiam, moscas morrem, mosquitos zumbindo na irritação do tímpano. Vozes no turvo da mente. É preciso fazer algo contra esses seres deploráveis. Apressar-se em escondê-los. Ou devorá-los. A aranha procura o ângulo do quarto. As vozes estão a distância, os olhos na janela.

Renato França