terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O MEDO





O MEDO

Alguém pode me dizer até onde dura o medo? Sim, porque trancado nesse quarto escuro não dá para eu saber.. apenas o medo sobrevive aqui... e dentro de mim... assim como fora também. Além do medo, o que sinto? O quarto escuro me suscita as fantasias, ou melhor, os fantasmas... A linguagem me cria esses embaraços... como achar melhor fantasmas a fantasias? Então, corrigindo: ou pior, os fantasmas..

De quem são esses fantasmas? Não sei! Sei que aparecem para assombrar aqui, no meu silêncio. Outro dia, à noite, quando não havia mais luz natural, a escuridão tomou conta de tudo como se fosse um porvir negro, macabro. Via aquelas velhas cruzes de cemitérios de filmes de terror da Hammer. Aquela atmosfera vaporosa, londrina. E então avistei os olhos dela na imensidão das cinzas do dia, do cinza do ar. Ela com seus fartos seios saltitando do audacioso decote. Olhos abertos, estatelados... sem expressão, se me viam, não sei... somente olhavam em direção ao nada. A boca de um batom negro... uma tumba aberta, ela a morta que retornava. Era um sonho? Era apavorante.

Acordei suado, calafrios pelo corpo. Febre. Dia já, não me lembrava de nada que não fosse a visão fantasmagórica daquela mulher, entre as cruzes da noite, no sombrio pátio, a estirar as mãos em minha direção, com aqueles olhos estupidamente abertos, como se suplicassem um beijo. Um beijo que me dava uma impressão glacial. Um beijo completamente frio.

Eu já pensei: será que existe mesmo um beijo da morte?

No quarto escuro parece que os beijos que não são de amor são de morte. Sim, porque o quarto escuro também abriga uma cena de amor... ela, toda esticada na cama, as luzes que jazem sobre ela são as das fimbrias da janela... que vazam da lua para iluminar os corpos dos amantes... eu então olhava para esse corpo tão lindo na cama.. as linhas insinuadas na sombra, no lençol de trevas que parecia descer sobre ela... ahhh, seus olhos... duas faíscas brilhantes, dois vagalumes piscando como o farol que orienta o capitão dos mares...o barco quase esbarra nos recifes, o corpo quase esbarra no desejo...o fantasma do paraíso, no silêncio da noite, no quarto escuro, me ama...

Foram muitas as histórias sobre beijos da morte. O caminhoneiro que parou ao ver a mulher pedindo carona, mulher linda, que ao entrar no caminhão se oferece, abre os botões... misto de doçura e devassidão, o caminhoneiro encontra seu destino trágico ao perceber que tem entre os braços uma caveira... e não há tempo de controlar a direção, indo ao encontro de uma árvore. Ele morre. Era o beijo da morte.

Uma mulher dedicada, humilde, mãe de três meninas e vivendo praticamente só com as filhas. O homem sempre viajando, o homem sempre na estrada, levando por vezes vários meses até retornar. Certa vez demorou um ano e meio viajando. As filhas, três lindas meninas, cresciam de modo que ele nem mais sabia o nome delas. A mãe se desdobrava com a criação das meninas, trabalhava cada vez mais para poder equilibrar a economia da casa, porque o dinheiro custava a aparecer, e muitas vezes, quando o marido retornava, era de bolsos vazios, com uma compra debaixo do braço. E só.

Só nada, ele vinha com a sua fome desvairada, queria a todo custo tirar da mulher um desejo que já não havia, ela com o corpo quase esquecido, ela sem se sentir a jovem atraente, de longos cabelos negros, corpo bem feito, a princesa de um lugarejo no fim do mundo. Apaixonara-se por aquele homem aventureiro, motorista de caminhão, que rodava pelo país, conhecia o mundo como ninguém. Contava-lhe histórias de suas andanças e dizia que a sua hora havia chegado, era tempo de estacionar e construir a casa, ter seus filhos. Ela olhava para a barba do homem e se orgulhava de ser como que uma escolhida do destino: dar a esse homem um lar, dar-lhe filhos.. ser dele, enfim.

E assim se deu. O casamento contrariara a mãe, que sonhava com a filha casada com o dentista filho do seu Joaquim do armazém, jovem que fora cedo para a cidade estudar e voltara formado e cobiçado pelas meninas. Não, para ela faltava-lhe aquela tenaz de homem do tempo, da vida, coisa que seu amor tinha de sobra: era um homem com todas as letras. Contrariando a todos, casou-se, sem levar nada para o novo lar que não fosse ela mesma... os pais recusaram-se a participar da cerimônia. Ela decidida seguiu sem destino.

Duro foi perceber que na noite de núpcias, após um longo instante de amor e prazer, acordou sentindo-se só... estendeu o braço sobre o corpo do marido que já não estava lá... e nunca mais esteve. Até hoje ela anda desesperada pelas ruas, enlouquecida, procurando por ele. Jovem, linda e maltrapilha... vive de restos... indiferente às tentativas da família de trazê-la de volta.

Vive de restos... esse olhar vago no espelho.. na memória as andanças e as fotografias imaginadas.. nunca o click conseguiu captar exatamente o instante.. o instante corrompido pela insatisfação, pelo fracasso. Talvez seja por isso essa estranha nossa preocupação com o tempo, com esse tempo tão estranho, que passa lento na infância e como um tufão destruidor com os anos... as tempestades sempre fizeram parte dos cenários em que o medo defrontava... o medo que junto ao tempo nos coloca nos braços de uma caveira.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

SIMULACROS: UMA RADICALIZAÇÃO DA FICCIONALIDADE


SIMULACROS: UMA RADICALIZAÇÃO DA FICCIONALIDADE

Renato França

A ficção brasileira, ao final da década de setenta, encontra-se diante de um impasse: para onde ir? Como superar as fórmulas já esgotadass do “realismo verdade”, documental e de base naturalista, tradicional em nossa prosa, presentes ainda em romances “modernos” como os jornalísticos ou mesmo livrar-se do peso do alegórico, do ‘isso quer dizer aquilo’, comum e até necessário em período nebuloso, marcado pela censura imposta pela ditadura militar?

Como, ao mesmo tempo, desviar-se dos excessos de ‘engajamento’, resultado do patrulhamento ideológico austero da “brigada crítica” da esquerda brasileira? Engajamento, que é um dos traços que mais bem definem essa literatura brasileira nascida sob o signo da missão, da atualização, da redenção?

Falamos aqui dos excessos que limitam o olhar sobre estético. E sobre a literatura.

Mas e o caminho de superação do impasse? A própria literatura daria a resposta; e o que se percebe, nos anos finais da década de setenta e princípio dos anos oitenta, por essa época já respirando a anistia e a abertura democrática, é o mergulho na experiência criadora, uma radicalização da ficcionalidade, tomada como consciência (des)construtora do real. Melhor dizendo, a consciência do real também como aparência, como imagem, como material manipulável nas mãos de um “artista”, de alguém que lhe depreende os materiais, desloca-os, aloca-os, de acordo com sua vontade ou interesse. Um mundo enquanto estética, enquanto forma, uma realidade manipulável, construída, repetindo, ou refazendo o percurso da ficção. Uma consciência da experiêncioa humana sempre mediada pela linguagem.

Tal postura da ficcionalidade propõe a renúncia ao projeto estético-ideológico de produzir a literatura-verdade. Com um olhar mais desconfiado, afiado em corrosiva ironia, por vezes perversa porque aniquiladora de ideais, sem lugar para a utopia própria da produção artística da vanguarda, que se estende do primeiro modernismo até a tropicália, herda desta sua propensão ao experimentalismo, à pesquisa estética, ao trabalho crítico com o significante, no caso da narrativa, com a forma tradicional do romance. Desarmado do aparelho crítico engajado, portador de “verdades”, armou-se o ficcionista de um olhar sobre seu próprio trabalho de inventor, e sua perspectiva passa a apontar para a própria ficcionalidade, para o próprio texto, como se não houvesse realidade outra que não a estética, e desvendando a realidade enquanto ficção.

Dobrando-se sobre o ficcional como ato crítico, o que se apresenta, ou se tematiza, é a ficcionalidade da vida, atravessada pelas contradições, dramatizações e pelo aniquilamento do indivíduo, transformado em mero personagem que só se manifesta entre paredes que delimitam o seu universo, que controlam os seus passos. Paredes que são a construção de um outro, manipulador poderoso — limites fixados por um criador, autor ou narrador — limites que não ultrapassam a teia narrativa que enreda a vida. O ato crítico de narrar denuncia então o quanto de ficcional há no que se considera mundo real.

Esse o foco de uma literatura a qual tenta responder a questão sobre a possibilidade de se encontrar caminhos que não sejam o documental e o alegórico já tão percorridos em nossa prosa.

Escapar ao excesso de documental e de alegórico, lançar mão de silêncios e elipses, essa é tendência contemporânea de nossa narrativa. Metanarrativa, devora a si mesma como a serpente que morde a própria cauda, imagem cara a Paul Valery para caracterizar a sua poética e a da modernidade — olhar a realidade como obra ficcional através dos olhos da ficção, ato crítico que desdobra aos olhos do leitor um mundo de representações.

Uma narrativa da pós-modernidade? Uma narrativa do contemporâneo?

Tais considerações sobre a ficção do final dos anos setenta e início de oitenta orientam a leitura que fazemos de “Simulacros”e “Breve História do Espírito”, romances de Sérgio Sant’Anna, o primeiro publicado em 1978, e que dá seqüência a uma produção instigante, desde “Cartas de Manfredo Rangel a respeito de Kramer”, livro de contos, e “Confissões de Ralfo”, romance autobiográfico imaginário; o segundo de 1991,publica do pela Companhia das Letras, obras nas quais emerge toda a questão do fazer literário, da construção do texto como uma reflexão sobre a vida, da escrita enquanto ato crítico, escrita irônica que dialoga com a tradição de nossa prosa.

Que são simulacros?

Simulações de realidade, manipulação, jogo de construções possíveis ou não em que personagens experimentam a vida com o que ela tem de absurdo, contraditório. O verbo experimentar aqui atua como elemento estruturador da narrativa de “Simulacros”, pois, ao estabelecer um contato com o romance experimental da tradição naturalista, desvia-se deste em sua intenção de não fotografar a verossimilhança do real-verdade. Próximo da paródia, corrosivo em sua ironia, o laboratório aqui faz experimentos com realidade vista como peças de um mosaico, que podem ser alteradas de acordo com a vontade do criador. Neste sentido, o romance de Sérgio Sant’Anna singulariza-se pelo jogo que promove com essas peças, relativizando o que é real e o que é aparência, para no final suprimir a possibilidade de existência da primeira, retirando as fronteiras entre uma e outra — deixando-se ver apenas a teatralidade e a manipulação:

“Na crônica daquela casa não se escreviam pessoas, profissöes, mas tipos, personagens, protótipos esteriotipados a simularem papéis, dirigidos por um espírito malfazejo, inventor maluco, gênio do mal”. (p. 82)

Personagens são tipos. Não têm nome e estão submetidos a um contrato junto ao cientista, inventor maluco e espírito malfazejo; são obrigados a viver sob a aparência: JP, jovem promissor, Vedetinha, Prima Dona e VC, velho canastrão. O dr. PhD, mestre da manipulação, cria situações a fim de observar o comportamento humano. São situações absurdas, tais como uma aventura no parque municipal durante a noite, encenando “Chapeuzinho Vermelho”, ou então um passeio pela cidade com as personagens travestidas, ficando ele, o criador, o cientista, na antecena, observador, do alto de sua autoridade outorgada pela “compra” das individualidades. Quaisquer ações ocorrem sob a sua orientação e ordem, sendo, portanto, vedada a possibilidade de manifestação de desejos, ou melhor, esses se manifestados só podem ser atendidos de acordo com a vontade do cientista. Vontade soberana.

“Ele parecia pesquisar em todos os tipos de livros: teatro, psicologia, ciências sociais, religião e até literatura”. (p.22)

As experiências existenciais do grupo são respaldadas por pesquisas comportamentais, realizadas em várias disciplinas do conhecimento humano. Da pesquisa social resulta o grupo, que constitui uma família, nos moldes tradicionais: o velho pai, a mãe; a filha e o noivo pretendente. O noivo, Jovem Promissor, assume o papel de narrador, um narrador que, em tensão com o seu criador, talvez o sujeito autor, luta por sua individuação, promovendo, ao longo da narrativa, uma rebelião contra essa mão poderosa de quem manipula, o Dr. Phd, e que dará o caráter inusitado ao final do romance, quando, após a sua morte, ressurge no sorriso de um simulacro de filho, do filho do casal JP e Vedetinha, como uma permanência inexorável do poder, que apenas muda de aparência. O narrador é um revoltado contra o aprisionamento da realidade ficcional, quer ser criador também. Mas é bom lembrar que a condição de narrador é dada pelo cientista, que considera o jovem promissor um “artífice manipulado por um ser supremo”. Difícil, então, para as personagens, livrarem-se das artimanhas desse ser supremo. Difícil escapar das regras do mundo ficcionalizado, no qual

“(...) o seu criador já admite desde logo que possui direitos sobre seus personagens, sobre mentira e verdade” (p.60)

Interessante que a condição de narrador de Jovem Promissor, apelido dado aos jovens escritores que prometem, não lhe permite a direitos, nem sobre si mesmo, nem sobre as outras personagens. Sua autoridade de narrador é desconstruída pela inserção na realidade manipulada pelo ficionista, que é quem lança os dados do destino. O narrador insiste em encontrar sua autonomia, mas sofre a crítica do criador:

“ E aqui aproveito para tecer uma leve crítica ao trabalho do Jovem Promissor. Uma certa tendência para a divagação, a explicação, quando todos sabemos que a boa técnica de um relato deixa ao leitor as interpretações” (p.56)

Abstraindo-se da trama envolvente de Simulacros, do fio narrativo que conduz de forma muito clara e estruturada a um clímax surpreendente, e que merece um estudo à parte, fica evidente que interessa aqui o jogo ficcional, no qual a realidade é montada e desmontada. Um jogo com a linguagem e com a representação: a possibilidade de construção de uma realidade, no plano da ficção, projeta-se no plano da narrativa como condutora das ações, ou seja, a construção da realidade movimenta as peças de forma lúdica, sendo a narrativa tecida pelo artífice, que é narrador, personagem e mesmo o outro do autor — Dr.PhD — o outro que atua como jogador, voz de fora/ dentro da narrativa. Uma voz que orienta o narrador.

A narrativa aponta para a construção do ficcional: cenários, situações existenciais, experiências conflitantes, índices comuns a qualquer narrativa tradicional, em “Simulacros” ganham o status de personagem tematizado, atuando junto as outras personagens que, como representação ou aparência, sofrem com sua despersonificação:

“ Ah, quer dizer que somos cobaias, heim?” (p.96)

Narrador e personagens têm a consciência de que são meras peças no jogo de xadrez do criador, por isso a necessidade existencial de livrarem-se dessa mão dominadora. Como se percebe pelo título, “Simulacros” pretende, através dos conflitos e tensões existentes entre os elementos da narrativa ficcional, levar a limites extremos a verossimilhança realista a ponto de ultrapassá-la, deixando-se à vista apenas o mundo de aparências, a ficcionalidade. Monta um painel em que são problematizados o ato de criação e representação no ficcional. A opção é a radicalização da ficcionalidade, sem deixar de expor as brechas por onde vazam inserções sobre o tecido social brasileiro, desmascarando a sociedade que se movimenta no véu das aparências, que teatraliza a vida, absorvida que está pelos papéis e scripts escritos ou ditados pelas mãos de poderosos manipuladores. Um mundo de simulacros — um mundo de pura representação.

Longe de se concentrar em esteticismo vazio, em experimentalismo puramente significante, traça o encontro da narrativa tradicional com a pesquisa estética mais radical, sem se filiar a nenhuma das duas formas de narrar. Há, portanto, um aproveitamento das tradições realista e modernista, esta mesmo em sua vertente mais radical, a de um “Serafim Ponte Grande”, de Oswald de Andrade, por exemplo; aquela pela adoção, mesmo que sob a forma de paródia, do romance experimental:

“(...) Ao mesmo tempo em que se narrariam, num estilo litero-jornalístico, fatos verdadeiros, estes fatos seriam provocados por uma intenção imaginária-ficcional e de caráter eminentemente científico-experimental. Tanto é que a encarregar-se da escrita do livro fora chamado um dos pr’prios voluntários de toda a experiência e que seria experimentado nesta atividade mesma: escrever. O que tornaria este livro experimental na acepção mais exata da palavra. Pois experimentavam-se não só os experimentos, como também as personagens e até o autor. Este considerado aqui não como um livre criador, mas como artífice manipulado por uma entidade ou ser supremo, uma espécie de deus (...) que apenas sintonizava seu auxiliar em determinados canais de captação e compreensão”. (p. 95)

Estabelece assim o diálogo, avançando para um caminho cujo percurso conduz a uma reflexão sobre a literatura como expressão da vida, e não como reflexo dela. Olha para a “realidade” sem a intenção de conduzir bandeiras. E se a desmascara, não é pelo viés ideológico comprometido com o “dizer as verdades”; se mostra as contradições sociais, mostra-as como as contradições da própria vida, que se esteticiza cada vez mais no universo da (pós) modernidade.

Cabe dizer, aqui, para fins de conclusão, que essa atitude crítica de uma narrativa que se debruça sobre si mesma a fim de, através da meta-narrativa e da ficcionalidade buscar um sentido ao que denominamos real, é um traço pertinente que nos ajuda a perceber a ficção produzida no pós-ditadura. Mais perceptível e fundamental, entretanto, é o constante diálogo estabelecido do contemporâneo com a tradição, com as formas tradicionais da narrativa, mesmo as de tom confessional e memorialista. Sem as características de um movimento organizado, de um “ismo” a mais na história da literatura brasileira, o que caracteriza o contemporâneo é a sua fluidez, a sua consciência de passagem, ou de margem, de terceira margem. Consciência de ser ficção.


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O CAFÉ

Nem sei se existe uma certeza. Sei apenas que existe uma porta aberta... talvez eu entre nessa casa e encontre um café fresco, ainda fumegando. Talvez encontre a mulher deitada na cama, dormindo, o lençol levemente cobrindo as partes sutis do corpo, as costas nuas, de bruços.. cansada do dia estafante do supermercado, quando centenas de pessoas passaram pelo seu caixa. Homens que escolhiam a olhos a beleza morena e deliravam com a fantasia da menina linda e pobre que se casa com um príncipe. Como se apenas desfilando a carteira, exibindo o cartão de crédito lhes creditassem o futuro nos braços da mulher.

Até que não é uma idéia tão equivocada. A tradição colabora. Mas olhar para essa mulher deitada, de costas nuas, os cabelos jogados sem destino certo cria a expectativa de que o aproximar-se será seguido pelo beijo ardente, aquele beijo da mulher que espera seu homem depois de uma semana rodando nas estradas, levando a carga de um estado a outro, visitando cidades que já conhece de muitas histórias... o café... o café que o mantém vivo durante as madrugadas e que, na parada de posto em posto, acaba encontrando aquela outra, desvairada, miserável, mãe de cinco filhos... arrasada mulher... e uma nota de dez reais conseguirá garantir o arroz e o feijão do dia seguinte.

Espreitar a porta semi-aberta e pressentir no silêncio a transformação das essências resguardadas. O café está frio, o café é envelhecido.. e os restos de pão no assoalho acabam delatando a violência, o medo de chegar ao quarto e ver a mulher desfigurada, o corpo inerte, frio como o café sequer tocado, pois não houve tempo, apenas o de correr e tentar se trancar e gritar, um grito que não podia ser ouvido, obliterado pelos outros gritos da final do campeonato. Ninguém ouviria, ninguém ouviu... ele simplesmente chegou sem fazer alarde, surpreendeu-a no instante em que o prazer de um café se inspira no enlace infinito do seu corpo junto `aquele céu aberto de paixão. As horas de antes, auroras como as vividas no imenso sonho da menina pobre e sem amor. Que mal há em sonhar, que mal há em ceder a uma atração tão visceral. Mas não....os rastros desse verão levam ao soturno inverno e o home traído não se sente tocado pelo café saboroso oferecido pela mulher, o pão na mesa se espalha em farelos numa vermelhidão dolorosa. Ferida no corpo e na alma, esvai-se como um rio em direção ao mar, misturando-se no escuro silêncio enquanto os gritos de gol e os fogos fazem a festa nos arredores.

A porta entreaberta e a cortina dos mistérios. Não ouso entrar, não ousa o homem despertar a linda caixa do supermercado, suas aventuras na estrada ficarão de fora, é cedo para descartar a solidão. E mesmo o sedutor aroma do café não o fará mudar de idéia. Seu caminhão está esperando a hora de ir, está na hora de esquecer essa porta que, quem sabe, mudaria o seu destino. Mas o medo de encontrar a mulher morta é maior que o sonho de vê-la com as costas nuas, o lençol cobrindo apenas suas partes, seus cabelos como ondas bravias.

sábado, 16 de julho de 2011

Morro Velho...


Filho do branco e do negro, caminhando juntos na estrada, caçando passarinhos, tomar banho de rio e correr no pasto.. orgulhosos e sem diferenças. E a noite um dia chega, não tem jeito, é para a capital que se vai para virar gente grande, e parte. Na estação as lágrimas e a promessa - amigo, não se esqueça, eu vou voltar...
Quando volta homem feito, traz no dedo o anel de doutor, na outra mão a alianã de ouro e a Dona Sinhá - hoje é ele quem na fazenda vai mandar.. e o velho amigo não brinca, mas trabalha na enxada, na plantação... traz na mão os calos dos anos, na testa o sal, o suor... na casinha herdada do pai falecido cinco filhos que crescem na mesma campina, mas sem os mesmos sonhos de antes, sem a promessa de que um dia a vida seria diferente... meninos sem escola ainda, sem outra perspectiva que trabalhar na fazenda e ser como o pai: trabalhador honesto com a vida vendida no armazém do Seu Honofre, administrador... Honorinho chegou! Honorinho chegou! Ele até tentou chegar à estação... que não mais havia, ele até tentou avistar o amigo... que não mais existia. Ficou para a noite a apresentação do novo Coronel...

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Com esperanças o dia surgiu. Helena acordava com a sensação da noite ainda, uma noite trilhada por caminhos tortuosos, pesadelos e contatos físicos com uma demoníaca criatura. Mas acordou, ora cansada, ora aliviada, Helena dirigiu-se ao velho espelho para dar uma arrumada nos cabelos, afinal sua cara de louca ficava pior ainda com os fios completamente esvoaçados. Seus cabelos longos e negros, seus fios tenuíssimos, quase difíceis de tocar, logo se alinhavam.. cabelo bom, como dizia a mãe, morrendo de inveja. Helena não entendia, ela amava os lindos cachos dos cabelos meio crespos da mãe. estranho olhar para o espelho, estranho porque ao se olhar só via essa mãe, tão distante nessa fase da vida, distante no tempo e no espaço, distante da alma e do coração... dela somente essa idéia de que quando a penteava ficava cantando baixinho: "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos..." - Helena ouvia essa canção e os tais caracóis inavadiam sua mente, bichos estranhos, imensos caramujos... e nunca mais conseguiu dormir que não fosse em enormes tanques, em suas regiões de sonho, imensos tanques que viravam pântanos... calçadas úmidas, cheias do lodo verde, do musgo que irritava a pele.. e eles, os caracóis, os caramujos, subindo pelas pernas, embrenhando-se em seus cabelos... a mãe com uma escova enorme varria-os em sua direção e cantava alto, alto até o insuportável...
Uma vida inteira assim.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ENXERTOS


Sempre que a vontade vem. Como se os sapatos ficassem na soleira me esperando. Quero ir. No álbum, as fotos mostram sorrisos aprisionados. Na Revista Amiga eu deixo quase um testamento. Concedi essa entrevista para que minha voz seja sentida, a voz real, minhas palavras. São convites, eu sei, para as conjecturas mais esdrúxulas, no armário guardo ainda o faqueiro dado de presente do casamento que não se realizou, aquele de cabos de madrepérola, um luxo. E também o vestido bordado, mamãe ficou pregando meses os botões vindos da Índia. Muito simples nos detalhes, por isso não gosto dele. Prefiro as coisas extravagantes, sou uma mulher que não aceita a manhã, o dia, essa história de acordar cedo e fazer ginástica. Não gosto de sol, praia para mim é à tarde, bem tarde,quando os malditos raios não me ferem a pele de porcelana, que brilha na noite. Minha pele clara. Nessa hora caminho no calçadão da Lagoa e olho para eles. Eles quem? Ora. Se eu gosto da brancura? Essa natureza alva é que mais excita em mim. Fiz dela a minha marca, pareço uma tela pronta para ser pintada, uma ilusão rentável. Outros me vêem como uma página e escrevem nela romances encalhados. Ficam loucos. Não gosto de interferências em minha pele, a não ser aquelas feitas com mãos e dedos, por isso não gosto desse sol tão decantado. Porque é à noite que brilho, como disse. Misturo-me às estrelas. Sim, é um calor frio, um brilho esquecido, que ganha sentido no completo breu. Gosto de ser assim, de ter essa aparência meio mórbida, ingenuamente dark. Fez de mim a celebridade de hoje. O reflexo assusta, mas desperta o desejo nos homens. Sem dúvida eu construí a minha rede, nunca deixei de acreditar nas palavras, no sentido que podem dar às coisas. E ludibriar. Nada como inventar amores, correr pelas páginas da imprensa criando terríveis sistemas. Sempre que a vontade vem lanço-me inteira no espelho, preciso de gente para sentir o prazer de fisgar um peixe, não me interessa o sonho que possam ter comigo, que ilusões alimentam, não me interessa o desejo que sintam, ajo como um punhal atravessando corações, são uns idiotas acreditando em mim, como são estúpidos. Um resolver me seguir, e os meus sapatos lá, no mesmo lugar, a porta trancada por dentro, e ele lá fora, olhando os meus sapatos. Achou que me calçando entenderia um pouco do que sou, mas a alma é insondável, nem pegadas, nem restos deixo que possam denunciar o que intimamente planejo. Foi entrando, me sondando, até que percebeu o perigo em que se envolvera, afinal, meu preço é alto, decifrar os enigmas de cobra custa o sabor de uma vida. Amar assim é o risco que se corre. Caiu de cabeça, total cegueira. Digo sempre que os homens não têm qualquer simetria com a razão. Foi-se num vendaval, um barco que ruma sem destino. Lá vai ele. Eu nem me importo.

Sempre que a vontade vem pego o meu barco e saio por esse mar afora. Prefiro ir sozinho, sentir o mar, o vento, o azul. Lanço iscas para pegar o grande peixe. Os anzóis, eu sei, engasgam na garganta, mas, e nós, nos lançando na aventura, também não nos deixamos fisgar? Todos os dias no meu automóvel, cruzando avenidas movimentadas, sinto o desejo de parar com tudo e cair sobre a mesa de um bar, ser petisco, devorado por bocas operárias. Um tira gosto, um acessório, não sou o fim, acho que nem meio sou, ponte para outros, por isso me jogo na imensidão da Lagoa e converso com os peixes, minha banda solitária, saborosos com tempero de alho e sal, um pouco de limão, prontos na frigideira. Tenho sim um desejo, entender essa linguagem silenciosa, quando olho nos seus olhos e vejo um estranho brilho prateado, parecem não piscar nunca, frios como os de um defunto, eu penso, e me vem toda essa vontade de ir, eu no meu barco remando para longe do atracamento, solitário velho do mar, na luta ancestral para trazer o grande peixe, de bico de espada, as mãos maceradas, rasgadas pelo atrito salgado da linha grossa, quem me dera ficar nesse quadro como o velho da geração perdida, a humanidade inteira à mingua. No dia-a-dia, os cardumes são bilhões de cabeças andando sem direção, desencontros, edifícios, avenidas nos olham profundamente, como um rio a circundar as almas. Estou sozinho na travessia diária, o meu paletó na cadeira me simula. Os peixes sucumbem na água podre.

Olho a cidade daqui de cima e sei que faço parte de sua podridão. Gosto da idéia que vem quando olho para aquelas estrelas caídas no asfalto, aquelas luzes que escapam dos túneis. Sempre que a vontade vem eu vou, desço as ladeiras das encostas, os degraus da cidade, carregando a nossa lei. Tem gente que pensa, esse pessoal deve morrer, bom mesmo só morto, eu sei, por isso tomo tudo que posso de qualquer um, tenho quatorze anos, mas pensam que tenho dezoito, ou duzentos.Acumulo os treze incompletos de um irmão, outros quinze do vizinho, e mais e mais de quem nem conheci iguais a mim. Todos somados à minha ira com o mundo só me tornam esse velho descendo o morro em passo acelerado, olhar de poucos amigos, cheirado e com a pistola na calça. Faço parte dessa vida que não mede sacrifício para conseguir qualquer coisa, sabe, tem muita fome aqui, o leite nunca dá, e você pensa que eu fico rico, saiba que não vejo nem dinheiro, nem família, se olho essa dona de cara para o nada, vejo uma bolsa, um cordão de ouro, uns trocados. Eu estudei sim, aprendi a ler poesia, li uma que dizia que alam humana mesmo na lama tem um brilho sagrado, desço o morro como um anjo vem para salvar o mundo podre, nessa lama preciso ser mais que podre para entender. Já matei e não me arrependo. Também não me acho muita coisa por isso, eu respiro, às vezes no fundo de mim eu grito, as paredes que me protegem fazem ecos, olho para as estrelas e elas se parecem com janelas. Eu entendo o meu destino e desço, sempre que me vem essa vontade eu desço as ladeiras camufladas na noite e percorro as ruas da Lagoa atrás de você, do seu dinheiro, que me dará pão, leite e segurança, mesmo que somente por alguns minutos. Conto assim, a vida acelerada como desço nos sinuosos atalhos para alcançar o asfalto.

Aquele menino se aproxima de mim. Sempre que vem essa vontade eu caminho por aqui, sento-me neste banco e anoto as coisas que se passam ao redor. Na visão, a imagem daquele homem remando, não sabe para onde, a imagem se afastando, quase me carregando com ela, porque tento imaginar o que vai na mente daquele homem remando indiferente ao meu olhar. Alguém pergunta que interesse haveria em saber o que se passa na cabeça de um homem remando, respondo apenas que faço enxertos nos espaços em branco, preencho vazios. O menino se aproxima de mim ainda mais e eu vou me deixar levar, eu sei o que ele quer, quer o que não posso dar, me analisa a distância, talvez espere que eu corra, ou não, estuda as minhas reações, leio páginas de violência todos os dias e já elaborei um manual de sobrevivência em bancos solitários e públicos. Eu aceno para aquele homem que rema longe, quase invisível, mas está absorto em seu esforço de remar em uma água imunda, os peixes com cara de peixe morto, fedidos como o ar, lavai ele, remando, me levando com ele, minha salvação. Mas olho para o lado e vejo a mulher da capa da Revista Amiga, que se diz devoradora de homens, andando sem direção. Eu apreendo por instantes o seu olhar, sei o que me aguarda, eu imploro, me responda com os olhos e se compadeça ao ver meu corpo tombar na guerrilha em que estamos, eu queria sim que ela me acenasse e eu pudesse dizer continue a devorar os miseráveis, sempre que essa vontade vem eu faço, procuro a sua imagem, mulher, acho que estranho que você esteja tão perto de mim no meu momento derradeiro e de agonia, o menino se aproxima a quase um palmo, é um menino alucinado, deve ter cheirado muita cocaína, enfia a mão na calça e uma pistola prateada reflete o seu olhar. Mulher, peço o seu olhar nesse último instante, agora, o remador sumiu com o dia, deixando-me comigo, aniquilando uma possibilidade de preencher outro espaço em branco. Uma história de crime no fim da tarde, quase noite. Uma história de amor esquecida, ou a de um menino, vingador das ruas, roubando de cada pedestre o que pode, cobrador de vidas interrompidas, sua infância morta a tiros. Uma história acontecendo diante dos olhos indiferentes de uma atriz decadente, decidida a andar no calçadão da Lagoa, desesperada e sozinha, sem dinheiro para o aluguel há quatro meses vencido. Mulher que olha com piedade um homem tombado em um banco após ser pilhado por um delinqüente e cala uma lágrima. Que olha assustada para o menino em fuga, sem vestígios, a vida escorrendo na calçada, os olhos esbugalhados de peixe fisgado, um barco que se distancia.

Renato França