sábado, 25 de dezembro de 2010

TRÊS DIAS

TRÊS DIAS

é impossível não ficar emocionado com o espetáculo desta população doentia, que engole a poeira das fábricas.
Charles Baudelaire

Escumalha

Destroem as ladeiras e as barricas deslizam sem sentido, impulso incontrolável a chuva humana espera os membros repartidos, o ranger dos atritos na tritura dos ossos, ripas e farpas encravadas, rompe-se o silêncio purgatório, a pele áspera dor emancipada por um tombo ridículo e insano. Débeis réquiens, narcisos hilários indecisos pernas imóveis quebradas retorcidas no chão e logo os carros socorrem atropelos os cavalos ocupados às mortalhas a náusea do campo das guerrilhas até a luz intermitente recolher-se às finadas escumilhas.

Carnavias

Elas vêm carnavaisvindas elas sem vergonha alguma almardentes amargas quantas saudades essas meninas eram uma jóia rara tempos fora forja do desejo no sambinha batucadente passarela salão elas ainda de saia hoje eu só no amargo de sonhos carnavias vão vida que parece esvair-se coca-cola sem tempo pra grapete, repete e aquele beijo suspenso nunca mais nem no corvo nevermore. Eu ainda achava que de terno sairia com a loira do bilcreme, carnavalha a vida não deu... mas elas vêm lembranças, andanças de um tempo que não sei, em telas, sem tê-las eternas são, eterno rio passa em minha vida, o coração se deixa ...

Mulher

Concebo da minha forma de querer costela (vermelha, longos cabelos unhas projetadas olhar vertigem muda); te fiz andar nas ruas, no dorso, no intrínseco, na secura (aniquilando o domínio das barbas), marginalmente. Meu suicídio em tua mão me contempla.

IMPRESSÕES DE VIAGEM - HELOISA BUARQUE DE HOLANDA

Sempre falamos das utopias e da crise em que vivemos com a falência delas na nossa experiência existencial nessa nossa era. Em que acreditamos, onde estão as nossas crenças? Bem, eu posso dizer que sou um ser retrospecto e tenho nas minhas veredas, carregado comigo, todo o cabedal de experiências pessoais e dos outros, mas que me servem. Não fiz parte dos CPCs nem fui perseguido e torturado.. a vida ao longo do tempo faz isso conosco de forma menos visceral... enfim, não ficamos levando choque e essas coisas que parecem não serem tanto assim do passado. Em nós, é claro... se eu perguntar para o meu filho de 17 anos em que ele acredita ele pode dizer muitas coisas.. mas sempre em torno de algo que esteja relacionado aos seus desejos de consumo, sua realização pessoal, intimista... sim, não existe nada mais além disso.
Impressões de Viagem percorre as veredas da década de sessenta e o melancólico, dramático e eclipsado retrato dos setenta, nos primeiros anos, depois da porrada de 68: o desbunde.
Livro importantíssimo para compor esse painel importante da história de nossa cultura.

CEIA DE NATAL

O homem saiu de seu quarto depois de dias. Era natal. O comércio logo fecharia as suas portas e era preciso abastecer o seu estoque. Já havia consumido seu tempo, bebido cada momento diante da TV vendo as notícias da Globo News, navegado na internet mandando mensagens salva vidas, aconselhado milhares de infelizes (ele tem um acervo enorme de frases de bom ânimo, de fé, de alegria, prontas para serem sacadas nessas circunstâncias).
Ele saiu do quarto e consciente de que não podia perder tempo desceu ao mercadinho para comprar os itens de seu íntimo festival, a sua comemoração. Não sairia à noite, não visitaria ninguém... escrevera para a namorada dizendo "hoje estou atacado".. na verdade nem estava lá essas coisas, seus demônios haviam partido para orgias mais apetitosas... estava de fato sozinho e tranquilo... assistira aos corre-corres dos shoppings e se sentia um felizardo por não partilhar daquela loucura toda.
Bem, era a hora. Deveria descer as escadas e comprar alguma coisa que desse a ele um mínimo de cor natalina. O mercadinho já descia as suas portas, mas o português simpático lhe dissera: fique à vontade, não tenho pressa. Que bom ouvir isso, enfim alguém que parece estar na mesma sintonia de dia-como-qualquer-outro. Ou seria a velha história de não perder um segundo sequer para vender... não importava, não tinha pressa mesmo. E ficou de fato à vontade, entrou, olhou a prateleiras, lembrou do tender que a mãe fazia e que adorava... a mãe retorna... a memória viva, imagens permanentes na veia e na alma... volta-se para as coisas que poderia comprar para tornar a noite de alguma forma diferente das demais. Olha, olha.. mas o que vê? o que lhe atrai?
Depois de longos minutos volta-se para o caixa e compra três maços de cigarro. "Pronto, minha ceia está completa". O armarinho fecha, ele sobre as escadas... pronto para mais uma!

ESTRADAS VAZIAS


Na solidão que percorre nossas veredas deparo-me com a pergunta: por quê? Já havia meditado sobre as incertezas e conclui que era mais um sintoma da era.. a caminhada solitária do poeta nada tem extravagante ou quimera sofredora. Alvares de Azevedo transformou o quarto fechado em um universo onde as tabernas, as mulheres, o satanismo das orgias, tudo flutuava com a beleza pueril. Então que existe de mal em caminhar numa estrada vazia, levando consigo o mundo de fantasias, notas musicais, melodias fantásticas? Levar na solidão aquele menino que ficava na sala entre discos de rock, desenhando no papel em branco a grande banda da Terra...
na Solidão que percorre nossas veredas me encontro.. o "my self"conforme me crio... sem medo de ser desmascarado. O duro, no entanto, é perceber que os limites disso não são assim tão nítidos, ao contrário, as linhas se dispersam nesse tecido de realidade. Me componho (a colocação do pronome na posição enclítica, contrariando a gramática mesmo). Me conformo. Me assumo. Adeus limites.. não existe em mim qualquer compromisso com os "frames" desse tempo... aqui deixo abertas as barreiras, sem qualquer impedimento podemos viver nesse trânsito. Até porque, o que é realidade? Uma estrada vazia vale a pena...