quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

AVENTURAS, AGRURAS


AVENTURAS, AGRURAS

Há uma solidão que nos percorre. O deserto que somos, seus ventos avassaladores, tempestades, miragens. Ilusões, não deixamos pegadas, no dorso, caminhar em nós é uma aventura desmedida. Sim, não somos o paraíso, armamos armadilhas para os incautos, deixamos brechas para os esperançosos crentes na possibilidade de nos dominar. Mas não. No fundo nossos olhos tentaculares, neles um fogo negro, dissumulado em luz.

Na atmosfera do sonho ela caminha, entre as nebulosas paisagens parece despertar macia em lençóis prismáticos. Havia medo durante algum tempo em seu rosto, mas não agora. Talvez ainda tímida, caminha num ensaio, resoluta, parte em direção ao desejo despontado à frente. Pensa: noutro tempo hesitaria, mas hoje não, me invento inteira, não sou, não fui. Estou embora. Nem rosto nem braços, conforme apareço no instante, bem que quis ser assim, por segundos apenas ,ter nos lábios essa secura pronta a atirar-se na fonte.

Uma expedição penetra o coroção do deserto. Quer dominar os mistérios, vencer as resistências. São homens trazendo sobre os ombros o peso enorme, e a areia fervendo os pés descalços. E ele, o cientista, do alto da sua visão, traz na mão o mapa mal traçado. Um amor indomado é assim, beijo na boca da fera, prazer do limite, desmedida e inconsequência. Apenas o prêmio. Os pés dos serviçais emoldurados de bolhas, ombros esfolados. No centro está abrigado das febres, quem sonhou domar a natureza em seus movimentos de morte e nascimento, e tocar as riquezas adormecidas nos subterrâneos. Talvez morra antes disso. Os corpos da expedição ficarão espalhados ao longo da trilha cujos rastros desaparecem a cada rajada de vento, a marca do medo de quem por ali passará um dia. O arqueólogo sabe de todos os perigos, mas em seus olhos apenas uma vontade visceral: vencer o fogo, vencer a areia, vencer-se.

Ela sente tocarem-lhe os ombros. Volta-se e se vê no espelho. Linda. No sorriso que recebe, a lembrança de que é hora de tomar café, escovar os dentes, passar o vestido, arrumar os cabelos, pegar o carro, enfrentar o trânsito louco da cidade, xingar na avenida, morder-se em silêncio, com aquela música de fundo (mas hoje não), desculpar-se pelo atraso de vinte minutos. Perder-se no labirinto dos ofícios e telefones, correr para o almoço, ouvir a cantada grosseira da mesa em frente, desviar-se, entorpecer-se de assuntos, retornar à mesa, ouvir a lábia do chefe, digitar mil relatórios, tomar um cafezinho, preocupar-se com a baixa de vendas nas regiões periféricas, olhar o relógio e ficar mais meia hora depois do expediente a título de desconto do atraso pela manhã, sentir o bafo do chefe em seu cangote, como a sugar sua última gota de sangue do dia, retornar a casa não antes de prometer aquela cerveja no happy hour onde se reúnem os colegas, sim, depois eu vou, com certeza. Voltar fazendo o caminho sem novidades insuportável pelo barulho, a infernação de buzinas, semáforos que confundem a vista, entrar correndo no chuveiro, nua novamente, e depois, de roupa mínima, tomar o leite desnatado e jogar-se inteiramente no mundo do qual nunca mais despertará, nem que novamente lhe toquem nos ombros e lhe digam que é hora do café.

Bem que se viu o desepero dele, agarrando-se à areia. Secou a água, resta apenas a garganta. As mãos crispadas, contorce-se todo. O ultimo dos serviçais percebeu que os olhos do aventureiro desviavam-se das rotas, o cérebro uma chaleira encandescida. Esboçou o homem um gesto de auxílio, mas seria justo não deixar que o arqueólogo sentisse o gosto da terra tão procurada? E beijasse dela a face terrível e febril, o intenso beijo na amada há tempos viva no seu sonho? Ele, que tanto perseguiu as sensações do deserto, que se enveredou sem trégua, agora, diante da porta aberta, está prestes a sentir o ventre quente e nos seus lábios entregar-se. Seria justo negar esse último instante?

Não, na narrativa do amante não espaço para essa piedade. Deixa então sentir o gosto desse beijo imensamente procurado; sob a pele macerada, sob o corpo alquebrado, a alma radiante, ansiando pelo derradeiro suspiro, dentro dela, do deserto que ousou desafiar. Sem vítimas, nem perda alguma. O seviçal morre, leitor admirado com a cena do amante obstinado, perseguindo imagens selvagens de um sol infinito.

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