Um Natal
Um par de sapatos brancos brinca na chuva. Dança maníaco-depressiva, fugitiva das alucinações notívagas quase sempre dissimulada num assobio encantador, um sonho de correr pelas ruas desertas dessa noite de natal, observando os farrapos recolhidos ao longo das vitrines, nos becos, em frente às lojas, vidrados nos televisores, esses olhos de fome.
Na Cinelândia, a essa hora, os bares estão fechados, é feriado nacional, acho que no mundo inteiro é assim, ouço falar nas luzes de Paris, e as meninas lá, desfilando a coragem que não tive de deixar-me ir, de me livrar da cangalha que me pesa, essa ambigüidade torturante. Aqui parece que a vida vai parar, a última tv de uma loja acaba de ser desligada, o menino reclama, mas o empregado diz que deve seguir correndo para casa. Acho que o menino não entende nada disso. Ele vai embora e não vejo mais ninguém.
No Amarelinho ensaia os passos Jazzísticos para o show do domingo próximo.
Ajeita os cabelos falsamente compridos. A chuva, para o espanto dos estrelados, continua a cair. De vestidos cor de prata, lamé, viscose, pensamentos passeiam insatisfeitos com uma noite que é única no ano, e tão esperada. O ano inteiro. Pensa: estranho como uma chuva espanta tanto, afinal ninguém está ali para contar uma história da infância, longe dos reflexos do néon, dos palcos faiscantes, cheios de suor e lágrimas, pois é a vida assim mesmo, um vasto corredor de farpas que se intrometem nos pés. O fio d água na testa depois do passo atrevido de sua dança. Caminhar sangrento este nosso. Bela e fera se misturam, um leão a cada. Dia ... ninguém resta para contar uma história, e a noite promete mil aventuras.
Longe dos holofotes, dos canhões de luz, da ribalta, o que fica é o irreal, que se cerca de personagens retirados da memória quase apagada pelo excesso de álcool acumulado nesses poucos longos anos. Há sim, um silêncio cúmplice, solitário cálice que é obrigada a beber. O vinho vermelho, o sangue que vem cantado lá da catedral metropolitana. O natal surge numa noite fria de chuva e ninguém parece estar acordado ou vivo para isso.
Valeria a pena pensar no passado? Talvez nada tenha importância, nada seja urgente, os dragões em sua mente enchem de fogo os seus olhos encharcados de lágrimas (é que a lembrança vem assim de repente, a mente lembrando quartos incendiados, as labaredas tocando suavemente a pele ardente, seus desejos apressados, uma boca apaixonada forma um desenho, um coração, uma entrega sem censuras... o tempo passa ligeiro sobre as cabeças, ela reflete. A hora avança, e talvez a noite lhe reserve um colo ainda, será possível? Um beijo do Rodrigues, quem sabe ele estará lá, na porta do Dulcina, esse doce anjo. O Rodrigues sempre tem algo a dizer, um cigarro a dar, quem sabe um beijo de feliz natal em seu coração puro.
É imensa a solidão que sente vendo os espelhos apagados, os cartazes do Rival em meio ao breu da rua estreita. No Dulcina, o porteiro está lá, e acena um beijo que se perde em entre os grossos pingos que caem. Noite infeliz. Um fio da meia se desprende. Droga de vida!
Os sapatos brancos saltitam inventando felicidade. O Amarelinho é um cemitério de mesas de pernas para o ar. Lembra-se de que todas se reuniriam nas escadarias do Municipal para uma foto. Elas todas, comparsas de misérias, eles todos, sócios de destino. O esgoto exala um cheiro insuportável, terrível vazamento que insistem em não consertar.. Reuniriam-se nas escadarias para seguir em direção à Catedral. Engraçado.. na missa do Galo...mulheres e homens, será esse o amor que tanto procuramos...juntos, uma outra devora... ...estranha... mas onde estão todos nesta noite que promete tanto? ... e as amigas que partiram, juntaram dinheiro como doidas , foram iluminar as ruas de Paris. No couro e no laço, criaram a coragem que não tive. Agora aguenta, e eu só tenho voce, e se eu sofro com isso, não me abalo mais. Eu fiquei só. Ninguém compreende a necessidade de estar junto num dia desses. Eu não posso esperar mais. Ao menos hoje, não. As mercadorias só tem valor no rio de cadáveres. Notícias de mortes, querida, li tantas, um massacre, mas somente em jornal do povo, que gente rica não le... De resto, estão todas expostas em Paris. E lá? Também sentem o mesmo frio que faz aquii?
Em um velho apartamento sujo da Senador Dantas, quatro meninas se aprontam. Experimentam brilhos diferentes, mais sóbrios. O batom ainda é o vermelho, porém isento de fantasias, é a cor da carne, do sangue, do perdão. Cada uma representa o espectro de sua família, imagem fugia de tempos mal vividos, há anos elas não sabem o que é sentar-se à mesa para uma ceia, talvez não tenham coragem de dizer que nunca viram uma fora das revistas de fofoca, das novelas. Acho que se pode viver aqui um pouco do que se vive lá...
Por isso a confraternização, uma foto para as amigas distantes em Paris, solitárias como elas, e depois a missa na catedral da Avenida Chile. Um espetáculo imperdível, do qual participarão sem medo, como senhoras benévolas. Solitárias, sabem que na noite de natal tudo pode ser permitido, desde um sono profundo até a realização do mais improvável desejo.
Neste dia um anjo desce às ruas, aos bares e retira as almas da lama diária recolhendo-as ao véu azul, ao improvável céu dos altares, dos incensos, dos cantos ao som do órgão, do violino, da flauta entoando a velha cantilena do natal.
Talvez encontrar a fonte mágica dos noturnos desvios, magia de um amor à mesa. Ou a morte, num sorriso que disfarça o escárnio de toda uma vida.
Um par de sapatos brancos saltita entre as ruas da Cinelândia. Conforme o prometido, encontrariam-se nas escadarias do Municipal para uma foto. Por que tanta demora? Por que ninguém me socorre nesta noite estúpida? Despoja-se dos sapatos, cujo branco agora está manchado. Bem que o porteiro tentou evitar, cuidado, isso corta mais que faca de peixeiro... só quero cortar o fio da meia... fio de meia se arranca num pronto só, assim, cuidado com o fio, essa faca eu uso como navalha, olha as marcas, faço barba ,ó.. no peito uma perturbação, o beijo que ficou guardado, sem coragem de ir junto com os olhos, que a seguem até sumir na curva. Ela busca os degraus do Teatro Municipal como quem busca o paraíso. Sem sapatos...
O fio escorre da meia para os braços, pára na mão, mistura-se com o jorrar da vida que começa a se esvair, manchando as escadarias. Ainda sobe até o último degrau, um derradeiro giro consegue fazer, para divisar os frisos das janelas cerradas, os bares de portas fechadas, um último olhar para distante Paris. Queria tirar a foto antes de sentir os braços do anjo em sua cintura.
Quatro meninas já prontas descem atrasadas para um encontro nas escadarias do Municipal, uma foto será enviada para as que estão em Paris, a Cidade Luz. Estão insinuantes como uma noite de gala, toda noite promete coisas, diz uma delas, essa noite deve ser a mais triste do ano, a outra fala ajeitando os cabelos já tomados pela chuva. O fio está lá, apesar do gotejar melancólico daquela hora. Ainda assim ninguém a vê, ninguém a percebe, ninguém lhe sente a falta. A boca entretanto ainda sente um salivar seco, sem forças, não se importa em resistir. Entregue à escuridão, os braõs do anjo a sustentam no ar. Absorta em sua ínfima lucidez, seu primeiro sorriso ouve os sinos da catedral.
Quatro meninas atrasadas, correm para não perderem o final do espetáculo que é anunciado pelos sinos da catedral. Não há mais tempo para a foto. As ruas frias e vazias. A noite assume seu papel, a névoa que encobre um corpo do alto das escadarias do Municipal, e a lágrima de um porteiro, que o vela solitário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário